Soberania alimentar, cidadã e consumidora

02.04.2015

O segundo artigo da série de coberturas do evento Conhecer e comer: caminhos para redescobrir a comida de verdade – perspectivas do Guia Alimentar para a população brasileira, traz o panorama apresentado no painel sobre “Soberania alimentar, soberania consumidora e cidadã”. O evento aconteceu no dia 24 de março, no Centro de Ciências da Matemática e da Natureza (CCMN), no campus Ilha do Fundão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  A organização e realização é do Programa de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia (HCTE/) e o Instituto de Nutrição Josué de Castro (INJC). A cobertura para o site Malagueta foi foi feita por um time de seis colaboradoras, que participaram do curso de Jornalismo Gastronômico, na Faculdades Integradas Helio Alonso (Facha).

 Soberania alimentar e cidadã

Por Gabriela Correa*

O segundo painel do evento “Conhecer e Comer” trouxe o debate soberania alimentar, consumidora e cidadã, guiado pelo princípio 4 do Guia Alimentar: “Diferentes saberes geram o conhecimento”. O Painel teve como mediador o professor Renato IMG_2056Maluf (CPDA-UFRRJ/FBSSAN).

O Coordenador-Geral de Alimentação e Nutrição (CGAN), do Ministério da Saúde, Eduardo Nilson, foi quem começou a reflexão proposta neste painel, expondo os diversos programas do governo na área da saúde que englobam a questão da alimentação, como a Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN), o Programa Saúde na Escola (PSE) e o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PLANAPO). Nilson falou sobre a importância do Guia Alimentar para a População Brasileira que vai na direção contrária da dominação das indústrias de alimentos de ultraprocessados. Ele atentou para a importância de priorizarmos o consumo de alimentos in natura e minimamente processados, construindo uma noção crítica sobre a comida de verdade e o processo que envolve da produção do alimento à preparação da refeição. A professora Luciene Burlandy, da Faculdade de Nutrição da UFF, comentou a importância de se ter conhecimento dos diversos programas existentes e cobrar do governo a execução dos mesmos, a fim de que seja ofertada à população uma alimentação saudável e que se trabalhe no resgate da cultura alimentar Nilson ainda comentou sobre a necessidade de reformular o Guia Alimentar para crianças menores de dois anos ao destaca a oferta excessiva de produtos alimentícios com adição de sal e açúcar para crianças nessa faixa etária.  Esse consumo cria desde cedo um paladar inadequado e viciado. Também foi discutido o fato de alimentos ultraprocessados que insistem em propagandear seus supostos benefícios, como a presença de vitaminas, o que, para Nilson, é um contrassenso. “Essas propagandas acabam por obscurecer a artificialidade desses produtos e a presença de aditivos que fazem mal à saúde do consumidor”, atesta Nilson.

Luciene Burlandy deu início a sua fala comentando a questão da construção social das “escolhas” alimentares e o importante processo de indução das políticas e leis. “Quando o assunto é soberania alimentar, faz-se necessário trazer para discussão a concentração de terras no Brasil, o uso intenso de mecanização, agrotóxicos, sementes transgênicas, aspectos que atingem significativamente o meio ambiente, a saúde da população e que despersonificam o produtor, nos deixando à mercê de empresas cuja prioridade é o lucro”, destaca a pesquisadora. Luciene falou também sobre os obstáculos destacados no Guia nessa busca por uma soberania alimentar, consumidora e cidadã, entre eles, a relação custo-saciedade-sabor, a multiplicidade de fontes de informação, o tempo e as nossas habilidades culinárias.

Luciene concluiu sua exposição sobre o valor das dinâmicas coletivas que interagem com nossas subjetividades, uma vez que não há como separar indivíduo e coletivo, o macro e o micro, pois são partes de um todo. E é justamente a partir dessa reflexão que podemos pensar o que foi dito pela pesquisadora Daniela Sanches Frozi (FIOCUZ/DF PALIN), que nos lançou o questionamento: “Soberania consumidora sem soberania produtora?”, trazendo o olhar para a pessoa que está por trás da produção do alimento e discutindo a Educação Alimentar através de Paulo Freire: “Não basta saber que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.” 

Daniela chamou atenção para que o conhecimento sobre a comida de verdade não se detenha sobre uma única visão. Mas deveIMG_2022 partir de diferentes olhares sobre o  que é a soberania alimentar,  compreendendo os significados de  “Eva viu a uva”.  Para Freire, antes de ler a palavra mundo é preciso ler o mundo, no sentido de compreender as dimensões e realções implíticas. Um conhecimento aprofundado, amadurecido, buscado e trabalhado, que amplie nossas visões sobre o assunto, e nos instigue questionamentos.

A respeito da tecnologia, o que Daniela problematiza não é a liberação da mesma, mas a liberação da tecnologia comercialmente, o que dá margem para usos que nos afastam da soberania alimentar. Mais uma vez foi comentada a divisão de terras no país, a partir de seu trabalho com grupos indígenas e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), os quais devem ser levados em consideração quando tratamos o assunto da alimentação. Que a educação seja crítica e libertadora foi a mensagem que ficou. É a multiplicidade de visões e o desejo em aprofundar o conhecimento que proporciona momentos enriquecedores como o evento em questão, que lotou o “Auditório Roxinho” do CCMN de gente de verdade querendo discutir a comida de verdade.

*Gabriela Corrêa é técnica em alimentos (IFRJ), estudante de História na UFRJ e assina o blog Sabor Diário.

Foto: Léo Martins